E finalmente o casamento do príncipe William e de Kate Middleton aconteceu. Não vou aqui tecer comentários sobre o vestido da noiva, a cerimônia, as festas ou os convidados, embora tenha ficado encantado com a elegância da moça, pois o que não faltam são blogs, programas ou revistas especializados, esmiuçando todos os detalhes da cerimônia.
O que eu fiquei pensando, na verdade, foi na responsabilidade que Kate carregava nas suas costas, tendo somente 2 bilhões de pessoas no mundo todo assistindo ao seu casamento, e comentando cada passo que ela dava. Por outro lado, toda mulher (ou pelo menos a maioria delas) queria ter o poder da nova “Duquesa de Cambridge” hoje, estar no lugar dela, vestir aquela bela roupa e ter o planeta aos seus pés.
E diante desse clima casamentício, resolvi compartilhar com vocês mais um texto da coluna “O Papo é Pop”, de Miguel Rios, publicada no JC On Line, onde ele defende que lá no fundo todo mundo quer ser Kate ...
Segue:
papo é pop
Congratulações, Kate!
Publicado em 28.04.2011, às 15h51
Por Miguel Rios
Kate, o mundo acima dos tronos é ambição humana desde que se aprende a ouvir, ler, perceber.
Adeus, Kate Middleton. Você se despede, a gente sabe. Você não será mais a mesma. Ainda que queira, se esforce, não tem como. Você, ao menos uma boa parte, vai para algum local, uma gaveta, um banco de reservas, um arquivo em uma pasta, para ser resgatada e acionada em momentos mais íntimos, mais relaxados, menos protocolares.
Não vai por completo, Kate. Nem poderia ir. Ninguém se despe de si por inteiro e pendura no guarda-roupa. Mas, Kate, você será outra, você e o planeta sabem. Coroada, perseguida, clicada, vigiada, adestrada. Alvo dos olhares, desejos, invejas, críticas e desprezos. O alto preço da realeza de hoje e de sempre. Mas, sobretudo, ser o que todos, lá no fundo, mesmo os que escondem e negam, tanto querem ser.
Kate, o mundo acima dos tronos é ambição humana desde que se aprende a ouvir, ler, perceber. E você sabe bem, garota.
Desde que a primeira história nos é contada, desde que as letras começam a se agrupar e formar palavras, palavras formam frases, e tudo junto ganha sentido, o tal fascínio se faz presente.
Desde que Cinderela, Ariel, He-Man, Nárnia, Senhor dos Anéis, Conan, Guerra nas Estrelas, Pelé, Michael Jackson, Roberto Carlos, Luiz Gonzaga, Elvis, Grace Kelly, Madonna, Diana, Cleópatra, Elizabeth a I e a II, D. Pedro o I e o II, se apresentam, um a um, eles reforçam a nossa cobiça de estar aí onde você está.
De estar aí, no cume. De não querer ser só mais um, mas ser aquele. O máximo, o rei. O que vai ser reconhecido, parabenizado, copiado. O cara. O que gosta do que conquistou, o que se mostra modesto, mas se rasga de ansiedade pelo próximo elogio, pelo próximo prêmio, para dizer, mesmo calado, a si e aos outros: “Sou o melhor. O rei daqui sou eu”.
É, Kate, é o que se chama vaidade, com toques, mínimos ou excessivos, de soberba. Não há quem não conheça, não tenha praticado vez ou outra, basta olhar para trás. É o nosso eu feroz escalando, pisando e deixando para baixo o eles, o nós.
Você lutou, garota. Pôs na cabeça logo cedo que seria rainha, articulou, mediu, foi lá, passo a passo, tocaiou e laçou. Criou a meta, traçou os planos, se dedicou a eles.
Fútil? Sim e não. Força de vontade? Com certeza. Era o você que queria, o que assumiu que queria, danem-se os outros, as outras, que agora torcem seus narizes, mas que sentem e sentirão aquele comichão familiar, inegável, que se coça escondido, o da inveja abafada. E que terão de lidar com a pergunta: toda mulher não tem direito a ser o que ela quiser ser, até princesa?
Você é uma bocado de desejos que sufocamos, disfarçamos, tentamos nos livrar, para não parecermos mais esnobes do que somos. É nossa vontade de Veuve Clicquot amenizada com Miolo, de Johnnie Walker Blue 21 anos que tem de morrer no Red, de Ferrari suprida por um Palio, de lagosta e não de camarão congelado, de férias em resort resignadas em pousada.
Você é nossa avidez por luxo e riqueza que mostrou a cara sem acanhamento do rótulo de frívola, que já colam junto. Você reconhece querer ascensão. Dispensou a nossa humildade duvidosa de menosprezar todo o prêmio da mega-sena, dizendo que só um quinto do dinheiro nos bastaria. Sua aposta foi na acumulada e sem subterfúgios: “Eu quero tudo!”
Garota, você representa nossas ambições e arrogâncias. Nosso inconfessável. Nossa alma teimando em não ser consumista, repetindo “eu não preciso disto, eu não preciso disto”, mas salivando de apetite. Nossa certeza de que ser desprovido de riquezas, com dinheiro contado a cada fim de mês, dívidas negociadas, pode não ser vergonhoso, mas é terrivelmente incômodo. De que fortuna pode não traz felicidade, mas é bem melhor ser infeliz em um cruzeiro pelas ilhas gregas.
Temos o teu sonho. Não o de reinar na Grã-Bretanha. Talvez nem em outra terra. Mas de se destacar em algo, ser ícone, levantar olhares. Ser parecido, chegar perto, a um daqueles que elegemos como rei do futebol, da música popular, do rock, do pop, do baião, de Pernambuco, da coxinha.
Ser rei e rainha é popular. Está no imaginário coletivo. Você, Kate, é mais uma. Nem a maior, nem a menor. Mas uma que, de fato, deslumbra. É nossa necessidade de ofuscação. De embriaguez. De, por alguns momentos, nos transportar até aí, neste teu mundo, e pensar como seria, o que eu faria, se me daria bem, que de tal obrigação eu não gostaria, daquela outra Deus me livre!, mas aquilo e aquilo, ah!, seria bom demais.
Você é o que rejeitamos em ataques de rebeldia contra as elites, de preocupação com o todo, de repartir riquezas. Aqueles ataques em defesa dos desvalidos. Quando os afagamos, nos solidarizamos, mas ficamos nos discursos sociais, debatendo através de iPods, Blackberrys, conversas de bar, e depois, enfadados, voltamos para os lençóis com amaciante Fofo, para o suco de laranja com pão quente e Danone toda manhã, o almoço em praças de alimentação de shopping centers, sem querer a vivência, real, na beira do rego, sob o telhado com goteira, do lixo na porta, do fedor do esgoto. Só, no máximo, uma visita para nos descriminar. A corriqueira prática do eu ajudo, mas eles lá e eu longe.

Você, Kate, é a satisfação da intelectualidade pernóstica, que te vira a cara, te acha pedante, mas já se achando superior, que te enxerga pelo cômodo e caquético lugar comum do clássico capitalismo x socialismo, te acusando de usurpadora da democracia, mas que aplaude monarcas sem coroa, mascarados defensores do povo, cercados de privilégios, comandantes, sentados em tronos que se teima em não reconhecer, por décadas, legitimados por artifícios e manobras.
Kate, você é nossa maior hipocrisia e nossa maior verdade. Nosso senso de ridículo gritando na disputando com nossa futilidade histérica. Nosso olhar de encantamento e de desdém, nos identificando e nos frustrando. Nossa vontade marinada de sermos ricos, poderosos, famosos, idolatrados. Nosso desapego, oculto ou descarado, por aquela tal humildade de catecismo e a total admiração, oculta ou descarada, pelo que tem preço altíssimo na etiqueta.
Você não fará o mundo nem melhor, nem pior. Só com mais glamour, Lady Kate. O príncipe é teu, a coroa é tua, o palácio é teu. Vá e vá com tudo, rainha.
Beijos,